Défice de atenção ou desconcentração?

Os défices de atenção passaram a fazer parte do vocabulário comum nestes últimos anos, havendo cada vez mais pais e professores preocupados com este problema. Ao que parece, sempre que uma criança não tem um desempenho escolar correspondente às expectativas, é distraído ou muito activo, encaixa nos critérios desta pandemia. Mas, o que é a distracção numa criança?

A distracção é, muitas vezes, uma reacção saudável àquilo que rodeia uma criança. É natural uma criança poder sentir-se cansada e stressada (hoje em dia a carga de trabalho diária está muito próxima do exagero), desmotivada ou preocupada. Neste sentido, podemos também assumir que para além de um comportamento de segurança pode ser também um comportamento quase fóbico no caso dos bons alunos: muitas vezes a criança competitiva torna-se “má perdedora” e prefere refugiar-se na sua atenção quase como se de um manifesto se tratasse. Esta linha de pensamento, serve também para aqueles alunos que perdem o fio à meada e que para se defender da frustração, preferem enredar-se na sua imaginação e noutros pensamentos bem mais interessantes que algumas aprendizagens formais.
Por outro lado, a distracção pode fazer parte de um quadro de cariz depressivo. Muitas crianças assistem e são parte de tensões familiares e/ou escolares que não são capazes de gerir, refugiando-se na sua tristeza e apatia. Muitas vezes, esta tristeza e apatia não é dissociável de ansiedade, e é um sintoma importante que afecta de forma significativa o bem-estar e equilíbrio da criança.

Estas dimensões da distracção encontram-se muitas vezes em convivência, o que pode justificar a intervenção psicológica, no sentido de apoiar na gestão emocional e o desenvolvimento de competências específicas para que a criança e os pais possam lidar com os mais variados sentimentos e emoções, com questões relacionadas com a auto-estima, motivação, sucesso escolar, tristeza, ansiedade etc.

Outra ideia comum acerca das crianças desatentas é que estas têm um mundo próprio e tudo lhes passa ao lado. Este pensamento é precipitado, pois mesmo as crianças que têm esta capacidade comprometida são capazes de pensar, intuir, sentir, relacionar e compreender.

Seja como for, para atingir uma atenção plena, são necessários todos os nossos sentidos, “físicos” e emocionais. É muito difícil prestar atenção a coisas desinteressantes (o que acontece várias vezes ao longo da vida académica). Se é para nós adultos, imagine-se para uma criança. Ora, tendo em conta todos os factores que nos rodeiam e a nossa disponibilidade cognitiva e afectiva, sabemos que é muito mais fácil fugirmos da atenção do que a encontrarmos (não é por acaso que a procura pela atenção plena e o mindfullness estejam tão na moda.)

Uma das dicas mais importantes para melhorar a atenção das crianças, e que dependem de nós cuidadores, são as regras. Se estas forem equilibradas e baseadas no bom senso são uma óptima ajuda para a criação de rotinas e ritmos. A atenção tem que ser, e deve ser educada, e havendo tempo para tudo (trabalhar, brincar, estudar, conversar) a nossa mente vai-se organizando e resolvendo os assuntos que nos aparecem. Sabemos, por experiência própria ou de conhecidos, que as crianças sem regras (as quais muitas vezes apelidadas de mal-educadas) são crianças impulsivas, que pensam e agem de uma vez só, desafiando muitas vezes o adulto e a sua autoridade. Estas crianças estão longe de serem crianças doentes, são sim crianças que precisam de ajuda para gerir tudo aquilo que têm à sua volta e o que têm dentro delas.

Se existem estas explicações alternativas para a desatenção, sabemos também que, numa percentagem inferior, esta está presente em padrões de comportamento desorganizados e agressivos. Este tema, da Perturbação de Hiperactividade e Défice de atenção, fica para outra altura!

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